Um tesouro arqueológico entre as montanhas da Mantiqueira

No coração da zona rural de Bragança Paulista, no bairro Guaripocaba dos Souza, encontra-se um dos mais significativos sítios arqueológicos do estado de São Paulo: a Toca da Paineira. Localizada em meio à vegetação serrana, entre afloramentos graníticos e trilhas históricas, a Toca é um abrigo sob rocha que guarda inscrições rupestres de povos pré-coloniais — um testemunho silencioso de ocupações humanas milenares.

🧭 Localização e acesso

A Toca da Paineira está situada na Fazenda São Bento, nas proximidades da Estrada João Hermenegildo de Oliveira. Embora cadastrada oficialmente no CNSA (Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos do IPHAN) sob o código SP01059, o local ainda carece de infraestrutura pública para visitação e proteção adequada.

🔍 Descoberta e pesquisa

Os registros arqueológicos da Toca vieram à tona durante o Programa de Prospecções Arqueológicas coordenado pelo arqueólogo Paulo Eduardo Zanettini, em 2006, como parte dos estudos de impacto para uma mineração local. A investigação revelou a presença de gravuras rupestres, fragmentos de artefatos líticos e vestígios de fogueiras e alimentos, permitindo identificar ocupações humanas que atravessam milhares de anos até o período colonial e contemporâneo.

🖐 Gravuras e vestígios: o que foi encontrado?

Na Toca da Paineira foram identificados dois painéis principais com inscrições rupestres escavadas na rocha e sinais de pinturas com pigmentos minerais, provavelmente à base de hematita. Além disso, escavações controladas revelaram:

  • Ferramentas de pedra lascada e polida (quartzo, silexito, hematita);
  • Resíduos orgânicos como coquinhos queimados e carvões;
  • Fragmentos de cerâmica e vidro colonial (século XVIII-XIX);
  • Vestígios recentes como latas, garrafas e munições.

O acervo foi estudado e preservado segundo protocolos de curadoria arqueológica, com parte significativa mantida in loco e outra acondicionada para fins científicos e museológicos.

🛑 Ameaças e desafios

Apesar de seu valor histórico e cultural, o sítio encontra-se vulnerável à ação humana e natural. Relatos e registros fotográficos evidenciam:

  • Pichações sobre as inscrições rupestres;
  • Depredações e fogueiras próximas às rochas, provocando o descolamento de placas;
  • Ausência de controle de acesso e vigilância.

O abrigo está em área privada e fora das zonas especiais de proteção previstas pelo Plano Diretor de Bragança Paulista. Ainda assim, ele é mencionado como um dos pontos turísticos a serem promovidos pelo município.

📢 Propostas de preservação

O CONDEPHAC (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Bragança Paulista) propõe:

  • Identificação e georreferenciamento da área com inscrições;
  • Criação de instrumento legal de proteção, em parceria com o IPHAN e o CONDEPHAAT;
  • Educação patrimonial e envolvimento da comunidade, valorizando o patrimônio local e seu potencial turístico e educativo.

🎯 Importância cultural e científica

A Toca da Paineira representa um elo com o passado ancestral do interior paulista, um fragmento da história humana anterior à escrita, à colonização e às cidades. Seus vestígios contribuem para o entendimento das dinâmicas de ocupação, uso do território e práticas simbólicas dos antigos habitantes da região sudeste.

Este sítio também permite comparações com outras culturas rupestres brasileiras, como as da Serra da Capivara (PI) ou do Vale do Peruaçu (MG), evidenciando variedades estilísticas, técnicas e contextos ambientais distintos que compõem o mosaico da arte rupestre no Brasil.

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📚 Saiba mais

Processo Administrativo nº 22539/2025 referente à visita ao Sítio Arqueológico Toca da Paineira, constando proposta de proteção no ofício encaminhado.

Visita Técnica do CONDEPHAC – 2025, Relato de Cecília M. Molina e equipe e Plano Diretor de Bragança Paulista – LC 893/2020

📍 Visitação e contato

Atualmente, a Toca da Paineira não está aberta ao público, mas há iniciativas locais para transformá-la em um Parque Arqueológico com fins educativos e turísticos.

📩 Se você é pesquisador, professor ou gestor cultural e deseja saber mais sobre o sítio ou propor parcerias educativas, entre em contato com a equipe do Heranças Vivas.


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