A Comunidade Jongo Dito Ribeiro, localizada na periferia de Campinas, SP, é um exemplo potente de auto-organização e resistência cultural afro-brasileira. Nascida no quintal de Dona Maria Alice e consolidada como comunidade em 2003, ela se define como uma “famÃlia onde você se encontra com todos” e um “universo cultural e ancestral”. Como afirmam seus membros, “É na roda do Jongo que o mundo gira…”. Mais do que um grupo que pratica o Jongo, é uma comunidade que “não vive do Jongo, mas vive para o Jongo, tendo consciência de suas responsabilidades com seus ancestrais”, assumindo a responsabilidade de salvaguardar a ancestralidade para as futuras gerações.
Patrimônio Material: A Casa de Cultura Fazenda Roseira
O coração material da Comunidade Jongo Dito Ribeiro é a Casa de Cultura Fazenda Roseira. Este casarão histórico, construÃdo por volta de 1850 e reformado pela última vez em 1920, é muito mais do que uma estrutura fÃsica; é o espaço onde a imaterialidade do Jongo se manifesta. A comunidade, majoritariamente composta por mulheres negras, ocupou o imóvel em 2008 para preservá-lo após denúncias de depredação pelo antigo proprietário. Eles sabiamente afirmam que “o Jongo como patrimônio imaterial precisa do patrimônio material para se manifestar”.
A gestão compartilhada da Casa de Cultura Fazenda Roseira com a Secretaria Municipal de Cultura é um modelo inovador para Campinas, embora enfrente desafios. A comunidade luta incansavelmente pela segurança do local devido a furtos e assaltos, pela preservação do Córrego Ipaussurama (importante para seus projetos agrÃcolas e cosmovisão africana), e pela preservação da própria estrutura fÃsica do casarão, que apresenta rachaduras e falta de reparos. Há também a demanda por placas de sinalização para a Casa de Cultura, pois “o que não é visto não é lembrado”.
Patrimônio Imaterial: O Jongo Vivo
O Jongo é a herança imaterial que a comunidade guarda e perpetua. Ele é descrito como uma forma de expressão afro-brasileira que integra canto, dança e percussão de tambores, sendo um meio de atualizar crenças nos ancestrais e no poder da palavra. O Jongo Dito Ribeiro entende que o Jongo está “onde o jongueiro está” e que a “Comunidade está em todos os espaços”, expandindo-se em redes que abrangem Campinas, o estado e até outros paÃses. O “território da Comunidade é ilimitado”, revelando que sua presença transcende barreiras fÃsicas.
A comunidade utiliza a Cartografia Social como uma ferramenta para perceber a dimensão de seu território e se apropriar dele efetivamente, saindo de uma gestão unilateral para uma cogestão, partilhada e compartilhada. Essa apropriação do território é vista como essencial para que a comunidade possa “pautar esse território” e ser vista por outros, evitando a vulnerabilidade.
Suas atividades são diversas e abrangem:
- Educação Patrimonial: Oficinas e formação para docentes e discentes.
- Preservação Cultural: Encontros como “Juventude de Terreiro” e “Pisa na Tradição”.
- Roteiro Afro: Projeto de turismo e história.
- Centro de Documentação e Memória Afrodescendente “Edite Ribeiro Barboza”: Um acervo histórico e audiovisual crucial.
- Engajamento Social: Promovem a discussão de temas importantes para a cultura afrodescendente, buscando uma sociedade mais justa e inclusiva, com “Ãndice zero de analfabetismo e miserabilidade”.
A comunidade atua como protagonista, requalificando e ressignificando o território e contribuindo para a construção de uma sociedade menos racista e intolerante. As demandas sociais, como a especulação imobiliária que “chega atropelando a cultura local” e a falta de sinalização para a Casa de Cultura, são vistas como obstáculos ao “direito à cidade”, onde a comunidade se sente “cidadãos incompletos” por não acessar o que a cidade oferece.

Fonte: Cartografias Sociais da Comunidade Afrodescendente de Campinas – SP, Vol 01, N.01, junho de 2017



Fonte: Cadastro Nacional de Pontos e Pontões de Cultura – Gov.br
Jongo Dito Ribeiro e a Classificação do Jongo no Sudeste pelo Iphan: Análise e Possibilidade de Integração
O Jongo no Sudeste foi reconhecido como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e ArtÃstico Nacional (IPHAN) em novembro de 2005, sendo inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão em 15 de dezembro do mesmo ano. Este reconhecimento abrange comunidades jongueiras dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e EspÃrito Santo. A pesquisa que fundamentou esse registro foi coordenada pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/IPHAN) e utilizou a metodologia do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC).
O dossiê do IPHAN descreve o Jongo como uma forma de expressão afro-brasileira com raÃzes nos povos de lÃngua banta, consolidada entre escravos nas lavouras de café e cana-de-açúcar do Vale do ParaÃba, servindo como uma forma de comunicação cifrada e resistência. As comunidades jongueiras valorizam o respeito aos ancestrais, os enigmas cantados nos “pontos” e a “umbigada” coreográfica. Os tambores são elementos centrais, reverenciados como conexão com os ancestrais e o mundo espiritual.
Apesar de o Jongo Dito Ribeiro se enquadrar perfeitamente nessas definições e caracterÃsticas do Jongo reconhecido pelo IPHAN, a comunidade de Campinas não foi explicitamente listada na classificação inicial do Jongo no Sudeste. As comunidades de São Paulo mencionadas no registro do IPHAN incluem cidades como Capivari, Cunha, Guaratinguetá, Lagoinha, Piquete, Piracicaba, São LuÃs do Paraitinga e Tietê, mas Campinas não está nessa lista.
Alguns motivos possÃveis para essa ausência podem ser:
- PerÃodo e Abrangência da Pesquisa Inicial: O inventário inicial do IPHAN foi realizado principalmente entre 2002 e 2006. Embora o Jongo Dito Ribeiro tenha se consolidado como comunidade em 2003, o dossiê do IPHAN indica que a pesquisa foi “mais aprofundada” no Estado do Rio de Janeiro, e que o inventário “não ter sido aplicado em sua totalidade nesses últimos estados [São Paulo, Minas Gerais e EspÃrito Santo]”. A comunidade de Campinas, por sua vez, relata que a tradição do Jongo, após o falecimento de Benedito Ribeiro (Dito Ribeiro), ficou esquecida por cerca de dez anos e foi “reacordada” (reavivada) por volta de 2001 (considerando que a dissertação que menciona isso é de 2011). Isso sugere que a Comunidade Jongo Dito Ribeiro estava em um processo de rearticulação e maior visibilidade durante ou logo após o perÃodo central de levantamento do Iphan, o que pode ter levado à sua omissão no inventário inicial.
- Reconhecimento Interno versus Formalização Externa: A comunidade Jongo Dito Ribeiro se reconhece em uma “rede de Jongueiros do Sudeste” e, em 2008, já referenciava o Jongo como “Patrimônio Imaterial Nacional, registrado pelo IPHAN”, indicando que, em sua percepção, já faziam parte. No entanto, a formalização e a documentação mais aprofundada sobre a Comunidade Jongo Dito Ribeiro, como a dissertação de Mestrado de Alessandra Ribeiro Martins (2011) e o fascÃculo da PUC-Campinas (2016-2017), surgem posteriormente ao registro inicial do IPHAN. Essa documentação detalhada pode não ter sido disponÃvel ou considerada no processo de 2005. O IPHAN, inclusive, reconheceu que “Há indÃcios de que na região Sudeste existem outras comunidades e grupos de praticantes do jongo” além dos inventariados.
Possibilidade de Integração Futura
Apesar de não estar na classificação inicial, há uma forte possibilidade e justificativa para que o Jongo Dito Ribeiro venha a integrar formalmente o rol do Patrimônio Cultural Brasileiro como parte do Jongo no Sudeste. O IPHAN, em seu próprio dossiê, expressa que “o inventário restringiu-se aos grupos mencionados, mas isso não significa que somente nessas localidades estão vivos o caxambu, jongo e tambor. pelo contrário: sabe-se que existem outros grupos”. A instituição também salienta a importância de continuar o projeto de identificação e referenciamento dos grupos jongueiros “para além desse primeiro inventário”.
A Comunidade Jongo Dito Ribeiro atende a todos os critérios e caracterÃsticas que levaram ao tombamento do Jongo no Sudeste:
- Prática Ativa e Vitalidade: Mantém o Jongo como uma prática social e cultural viva, com grande engajamento das gerações mais novas.
- Legado Ancestral: Reconhece e celebra a herança cultural banta e a memória da escravidão e libertação, com “pontos” que rememoram o cativeiro e a liberdade.
- Engajamento Comunitário e Organização: É uma comunidade organizada, com lideranças engajadas, como Alessandra Ribeiro Martins (Mestre e Doutoranda em Urbanismo), que atua na preservação e difusão de sua cultura e busca constantemente a auto-organização e a legitimidade de seu território.
- Diálogo e Visibilidade: A comunidade busca ativamente a interlocução com o poder público e a sociedade, como demonstrado por suas demandas por polÃticas públicas e projetos educacionais.
- Apoio Documental: A existência de documentação acadêmica detalhada (dissertação de mestrado e fascÃculo universitário) oferece um robusto arcabouço para sua identificação e valoração, preenchendo lacunas de conhecimento que podem ter existido no momento do inventário inicial do IPHAN.
A inclusão do Jongo Dito Ribeiro fortalecerá ainda mais a representatividade e a abrangência do Jongo como Patrimônio Cultural do Brasil, reconhecendo a diversidade de manifestações e a resiliência dessas heranças vivas no território brasileiro. Esta integração seria um passo natural para o reconhecimento pleno da importância da Comunidade Jongo Dito Ribeiro, não apenas para Campinas e região, mas para o panorama cultural afro-brasileiro em nÃvel nacional.
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